"HOMENS DA IGREJA NO CORAÇÃO DO MUNDO
HOMENS DO MUNDO NO CORAÇÃO DA IGREJA"
"Não te peço que os tires do mundo, mas que os guarde do maligno" (Jo 17,15). É a oração sacerdotal de Jesus que o Evangelista João teve a felicidade de registrar no quarto Evangelho. Tendo Jesus cumprido até o fim sua missão, rezou por mim, por você, antes de partir para a casa do Pai.
Agora a missão de Jesus vai continuar por meio dos discípulos que da mesma forma que fez Jesus, romperam com a mentalidade perversa do sistema que age contra a fé. A missão deles e a nossa, porém, não é sair do mundo, e sim permanecer unidos, presentes no meio da sociedade, dando testemunho de Jesus. A oração de Jesus é um pedido ao Pai, para que proteja os seus escolhidos para não se contaminarem com o espírito do mundo, a cujas ameaças e seduções eles não cederão. Quando João fala do "mundo" na oração de Jesus, quer indicar tudo que não provém de Deus, que é o anjo mau que atravessa no meio do plano de Deus e de sua obra salvadora realizada em e por Jesus Cristo. Não somos do mundo, não pertencemos a este mundo, mas Jesus nos quer vivendo nele, para levá-lo a Deus.
Os fiéis leigos e leigas discípulos e missionários de Jesus são chamados a ser Luz do Mundo. "Estão incorporados a Cristo pelo batismo, formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: Sacerdote, Profeta e Rei. Segundo sua condição realiza a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo" (LG 31). Cada cristão deve ser um, "alter Christus", isto é, outro Cristo que vai pelo mundo propagando o Evangelho, com a vida e com as palavras. Em cada cristão, consciente disso, Cristo continua a sua missão salvadora. Assim, Ele nos deu a honra e a glória de o ajudarmos a construir o seu Reino, que também é nosso através da tríplice missão: Sacerdotal, Profética e Régia, que se realiza no mundo, de tal modo que, com o testemunho e sua atividade no mundo, contribuem para a transformação das realidades. Desfrutará das delícias desse Reino eterno, todo aquele que tiver trabalhado para construí-lo como "homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja" (DP 786).
Ao rezar por nós, Jesus quer nos levar a conhecer os inimigos para melhorar nossa defesa e para vencê-los, afim de que nossa participação em Cristo, na tríplice dimensão Sacerdotal, Profética e Régia, produza muitos frutos diante de tantas profanações da pessoa humana, diante de tanta corrupção, diante de tanto roubo, de tanto crime, de tanta prostituição e pornografia, enfim, diante de tantas trevas, não é difícil de concluir que a luz de Cristo ainda brilha muito pouco, mesmo numa civilização que se diz cristã. Por isso tudo, é urgente evangelizar; é urgente acender a luz de Cristo, no mundo do trabalho, no mundo da ciência, no mundo da economia, dos meios de comunicação, das leis, no mundo do comércio. É esta a missão que o Senhor confiou a cada um de nós leigos e leigas, que vivemos no mundo frente aos desafios da fé, diante da cultura pagã.
"Consagrados a Cristo pelo batismo nos tornamos um Povo Sacerdotal e somos chamados a desenvolver "em todas as dimensões da vida pessoal, familiar, social e eclesial o chamado à santidade, dirigido a todos os batizados" (CIC 941). Assim, todos os cristãos são chamados a "oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo e a não esquecer de fazer o bem e de praticar a mútua ajuda comunitária" ("Missão e Ministérios dos cristãos Leigos e Leigas", Documento 62, CNBB, Paulinas, 1999).
A função profética realiza-se pela pregação da palavra, que não foi confiada somente a alguns, mas a todos aqueles que foram chamados a testemunhar, segundo o carisma de cada um, realizando a missão recebida no batismo e desejada por Cristo. São Tomas de Aquino afirmava: "Ensinar alguém para levá-lo à fé é a tarefa de cada pregador e de cada crente". Assim, "oxalá todo o povo de Deus fosse profeta, dando-lhe Javé o seu Espírito" (Nm 11,29; Ez 36,27). É ainda a carta do Apóstolo Tiago que nos exorta a não apenas ouvir a palavra, enganando-nos a nós mesmos, mas antes de tudo sermos praticantes. "Praticando o que ela ensina, esse é bem-aventurado naquilo que faz" (Tg 1,25).
Na função Real acontece aquela participação condição que o próprio Cristo desejou quando antes de partir para o Pai nos convida a estarmos no mundo para transformá-lo por meio de nossa ação evangelizadora. "Assim todo o leigo, em virtude dos próprios dons que lhe foram conferidos é testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja" (LG 33). A função Real se dá nos "Novos areópagos e centros de decisão" (DAp 491). É nestes centros de decisão que todos os batizados (as) com sua presença ética e coerente, semeiam os verdadeiros valores evangélicos.
Ao rezar por nós, Jesus quer nos levar a conhecer e vencer os inimigos externos da fé, para melhorar nossa defesa e para vencê-los, a fim de que nossa fé produza muitos frutos diante dos desafios que nossa realidade nos impõe. É necessário, portanto que os batizados em sua tríplice participação em Cristo, assumam a sua função própria. O santo Concílio, iluminado pelo Espírito, deixou claro a nossa missão: consagrar o mundo em que vivemos a Deus. E nesta imensa tarefa, ninguém está dispensado. Alguém já disse que no Reino de Deus não há desempregados e nem aposentados. Todos são indispensáveis. Cada um recebeu dons próprios que os outros não receberam. Deus espera a nossa participação sincera, consciente, como afirma a Carta de São Tiago: "renunciando a toda imundície e a todos os vestígios de maldade, recebei com docilidade a Palavra que foi plantada em vossos corações e é capaz de salvar as vossas vidas" (Tg 1,21).
A mola propulsora de todo este trabalho há de ser sempre o amor a Deus e aos irmãos. Deus nos deu tudo: a vida, o ser, o mundo material com todas as suas belezas e riquezas, e nos deu ainda o seu Filho Único para sofrer e morrer pela nossa salvação. O que mais poderíamos pedir a Deus? Nada. Resta-nos tão somente agradecer. Mas não apenas com palavras e orações, mas com o comprometimento de toda a nossa existência no seu projeto de reunir de novo todos os homens em Jesus Cristo, pela e através da Igreja.
Assim como Jesus "veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos" (Mt 20,28), também nós como Igreja, Povo de Deus, por força de nosso batismo, devemos colocar-nos efetiva e afetivamente a serviço deste Reino, para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos. Consagrados e ungidos pelo Espírito Santo em nosso Batismo, cada um de nós deve se apropriar daquela palavra do apóstolo que nos recorda: "Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho! Se o fizesse da minha iniciativa, mereceria recompensa. Se o faço independentemente de minha vontade, é uma obrigação que se me impõe" (1 Cor 9,16-18).
Não tenhamos, portanto, nem medo e nem desânimo, pois a obra é Dele, e a batalha lhe pertence, e nós somos os seus colaboradores. Nossa fé enfrenta vários desafios, grandes desafios dos inimigos da fé. Tenhamos, porém essa certeza: Jesus orou por mim, por você, antes de partir para a casa do Pai. "Não te peço para tirá-los do mundo, mas para guardá-los do Maligno" (Jo 17,15) Não digas, portanto: "Sou apenas uma criança; porquanto irás procurar todos aqueles aos quais eu te enviar, e a eles dirás o que Eu te ordenar. Não os deves temer porque estarei contigo para livrar-te" (Jer 1,4-8). Quando o Senhor nos envia em seu Nome, seja ao próximo mais próximo, seja aos confins da terra, Ele nos dá a Sua graça; e, mais ainda, a Sua própria presença. Não tenhamos medo. Ele caminha conosco e está ao nosso lado. Deus nos abençoe. Amém!
Padre Vilmar Moretti
Próspera, Junho 2010