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Colunista: Padre Vilmar Moretti
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Homens da Igreja no coração do mundo, homens do mundo no coração da...

Escrita em: 09/06/2010

"HOMENS DA IGREJA NO CORAÇÃO DO MUNDO
HOMENS DO MUNDO NO CORAÇÃO DA IGREJA"

 

 

"Não te peço que os tires do mundo, mas que os guarde do maligno" (Jo 17,15). É a oração sacerdotal de Jesus que o Evangelista João teve a felicidade de registrar no quarto Evangelho. Tendo Jesus cumprido até o fim sua missão, rezou por mim, por você, antes de partir para a casa do Pai.


Agora a missão de Jesus vai continuar por meio dos discípulos que da mesma forma que fez Jesus, romperam com a mentalidade perversa do sistema que age contra a fé. A missão deles e a nossa, porém, não é sair do mundo, e sim permanecer unidos, presentes no meio da sociedade, dando testemunho de Jesus. A oração de Jesus é um pedido ao Pai, para que proteja os seus escolhidos para não se contaminarem com o espírito do mundo, a cujas ameaças e seduções eles não cederão. Quando João fala do "mundo" na oração de Jesus, quer indicar tudo que não provém de Deus, que é o anjo mau que atravessa no meio do plano de Deus e de sua obra salvadora realizada em e por Jesus Cristo. Não somos do mundo, não pertencemos a este mundo, mas Jesus nos quer vivendo nele, para levá-lo a Deus.


Os fiéis leigos e leigas discípulos e missionários de Jesus são chamados a ser Luz do Mundo. "Estão incorporados a Cristo pelo batismo, formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: Sacerdote, Profeta e Rei. Segundo sua condição realiza a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo" (LG 31). Cada cristão deve ser um, "alter Christus", isto é, outro Cristo que vai pelo mundo propagando o Evangelho, com a vida e com as palavras. Em cada cristão, consciente disso, Cristo continua a sua missão salvadora. Assim, Ele nos deu a honra e a glória de o ajudarmos a construir o seu Reino, que também é nosso através da tríplice missão: Sacerdotal, Profética e Régia, que se realiza no mundo, de tal modo que, com o testemunho e sua atividade no mundo, contribuem para a transformação das realidades. Desfrutará das delícias desse Reino eterno, todo aquele que tiver trabalhado para construí-lo como "homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja" (DP 786).


Ao rezar por nós, Jesus quer nos levar a conhecer os inimigos para melhorar nossa defesa e para vencê-los, afim de que nossa participação em Cristo, na tríplice dimensão Sacerdotal, Profética e Régia, produza muitos frutos diante de tantas profanações da pessoa humana, diante de tanta corrupção, diante de tanto roubo, de tanto crime, de tanta prostituição e pornografia, enfim, diante de tantas trevas, não é difícil de concluir que a luz de Cristo ainda brilha muito pouco, mesmo numa civilização que se diz cristã. Por isso tudo, é urgente evangelizar; é urgente acender a luz de Cristo, no mundo do trabalho, no mundo da ciência, no mundo da economia, dos meios de comunicação, das leis, no mundo do comércio. É esta a missão que o Senhor confiou a cada um de nós leigos e leigas, que vivemos no mundo frente aos desafios da fé, diante da cultura pagã.


"Consagrados a Cristo pelo batismo nos tornamos um Povo Sacerdotal e somos chamados a desenvolver "em todas as dimensões da vida pessoal, familiar, social e eclesial o chamado à santidade, dirigido a todos os batizados" (CIC 941). Assim, todos os cristãos são chamados a "oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo e a não esquecer de fazer o bem e de praticar a mútua ajuda comunitária" ("Missão e Ministérios dos cristãos Leigos e Leigas", Documento 62, CNBB, Paulinas, 1999).


A função profética realiza-se pela pregação da palavra, que não foi confiada somente a alguns, mas a todos aqueles que foram chamados a testemunhar, segundo o carisma de cada um, realizando a missão recebida no batismo e desejada por Cristo. São Tomas de Aquino afirmava: "Ensinar alguém para levá-lo à fé é a tarefa de cada pregador e de cada crente". Assim, "oxalá todo o povo de Deus fosse profeta, dando-lhe Javé o seu Espírito" (Nm 11,29; Ez 36,27). É ainda a carta do Apóstolo Tiago que nos exorta a não apenas ouvir a palavra, enganando-nos a nós mesmos, mas antes de tudo sermos praticantes. "Praticando o que ela ensina, esse é bem-aventurado naquilo que faz" (Tg 1,25).


Na função Real acontece aquela participação condição que o próprio Cristo desejou quando antes de partir para o Pai nos convida a estarmos no mundo para transformá-lo por meio de nossa ação evangelizadora. "Assim todo o leigo, em virtude dos próprios dons que lhe foram conferidos é testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja" (LG 33). A função Real se dá nos "Novos areópagos e centros de decisão" (DAp 491). É nestes centros de decisão que todos os batizados (as) com sua presença ética e coerente, semeiam os verdadeiros valores evangélicos.


Ao rezar por nós, Jesus quer nos levar a conhecer e vencer os inimigos externos da fé, para melhorar nossa defesa e para vencê-los, a fim de que nossa fé produza muitos frutos diante dos desafios que nossa realidade nos impõe. É necessário, portanto que os batizados em sua tríplice participação em Cristo, assumam a sua função própria. O santo Concílio, iluminado pelo Espírito, deixou claro a nossa missão: consagrar o mundo em que vivemos a Deus. E nesta imensa tarefa, ninguém está dispensado. Alguém já disse que no Reino de Deus não há desempregados e nem aposentados. Todos são indispensáveis. Cada um recebeu dons próprios que os outros não receberam. Deus espera a nossa participação sincera, consciente, como afirma a Carta de São Tiago: "renunciando a toda imundície e a todos os vestígios de maldade, recebei com docilidade a Palavra que foi plantada em vossos corações e é capaz de salvar as vossas vidas" (Tg 1,21).


A mola propulsora de todo este trabalho há de ser sempre o amor a Deus e aos irmãos. Deus nos deu tudo: a vida, o ser, o mundo material com todas as suas belezas e riquezas, e nos deu ainda o seu Filho Único para sofrer e morrer pela nossa salvação. O que mais poderíamos pedir a Deus? Nada. Resta-nos tão somente agradecer. Mas não apenas com palavras e orações, mas com o comprometimento de toda a nossa existência no seu projeto de reunir de novo todos os homens em Jesus Cristo, pela e através da Igreja.


Assim como Jesus "veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos" (Mt 20,28), também nós como Igreja, Povo de Deus, por força de nosso batismo, devemos colocar-nos efetiva e afetivamente a serviço deste Reino, para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos. Consagrados e ungidos pelo Espírito Santo em nosso Batismo, cada um de nós deve se apropriar daquela palavra do apóstolo que nos recorda: "Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho! Se o fizesse da minha iniciativa, mereceria recompensa. Se o faço independentemente de minha vontade, é uma obrigação que se me impõe" (1 Cor 9,16-18).


Não tenhamos, portanto, nem medo e nem desânimo, pois a obra é Dele, e a batalha lhe pertence, e nós somos os seus colaboradores. Nossa fé enfrenta vários desafios, grandes desafios dos inimigos da fé. Tenhamos, porém essa certeza: Jesus orou por mim, por você, antes de partir para a casa do Pai. "Não te peço para tirá-los do mundo, mas para guardá-los do Maligno" (Jo 17,15) Não digas, portanto: "Sou apenas uma criança; porquanto irás procurar todos aqueles aos quais eu te enviar, e a eles dirás o que Eu te ordenar. Não os deves temer porque estarei contigo para livrar-te" (Jer 1,4-8). Quando o Senhor nos envia em seu Nome, seja ao próximo mais próximo, seja aos confins da terra, Ele nos dá a Sua graça; e, mais ainda, a Sua própria presença. Não tenhamos medo. Ele caminha conosco e está ao nosso lado. Deus nos abençoe. Amém!

 

Padre Vilmar Moretti

Próspera, Junho 2010

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